SOBRE A EUTANÁSIA…

Este é de facto um assunto que me toca, acho que toca a todos, mas nem todos são sensiveis ao assunto ou estão devidamente informados, outros nem querem saber, mas é um assunto importante.
Para mim é bastante importante, saber como posso vir a morrer.

Respeito, respeito quem é contra a Eutanásia, terão os seus princípios e ideologias diferentes das minhas, não acredito é em motivos que não são válidos e por aí na internet, seja em redes sociais ou em artigos de jornal/plataformas informativas, já se viu de tudo. Há  opiniões bem fundamentadas como outras que não passam de horrendas e obscenas barbaridades.
Pois aqui vai a minha, EU SOU A FAVOR DA EUTANÁSIA.

Todos os projetos de lei discutidos na passada terça-feira sobre despenalização e regulamentação da morte medicamente assistida coincidem no critério-base: pessoas em situações de fim de vida em sofrimento intolerável.

Portanto, não é uma decisão que se tome em vão, que por qualquer motivo a possamos tomar, muito menos de animo leve. É uma questão sensível, ninguém vai começar ai a “matar velhinhos” como se viu na rua em cartazes, não sejamos ignorantes. Obviamente que a legislação tem que ser apertada e clara, e há que fazer uma avaliação por cada caso, mas como me podem tirar o direito de decidir como morrer em situações extremas como de doença terminal?

Infelizmente tive dois casos de cancro na minha familia, uma delas eu era muito nova para ter a percepção das coisas, mas lembro-me do sofrimento por isso causado, não a nós familia, nós que cá ficamos sofremos muito, mas quem está na situação sofrerá de uma forma inimaginável. Chegou a uma certa altura que me foram restritas as visitas ao meu tio porque já estaria num estado demasiado degradante para poder estar por perto dele (degradante no sentido de sofrimento, definhamento e não reconhecia as pessoas). Mais tarde, já em idade adulta, tive a infelicidade de uma das pessoas mais importantes da minha vida ter também cancro, o meu avô materno. Com ele passei todas as fases, o diagnóstico, as operações, recuperações, tratamentos, radioterapia, o “estar tudo controlado”, a volta do cancro, mais operações, mais tratamentos, mais sofrimento, sofrimento numa pessoa que já estava nos seus 80 anos, que inevitavelmente pela idade, cansaço da vida mas principalmente pela doença mudou radicalmente.
O meu avô foi um guerreiro, lutou até ao fim, até mesmo quando me disseram dentro de um gabinete do IPO de Lisboa que não haveria mais nada a fazer e me deram toda a informação para começar a tratar do seu  encaminhamento para os cuidados continuados, para que ele tivesse uma morte “mais descansada” e estivesse vigiado 24 horas.
Ele não quis acreditar entrando em negação, continuou a lutar, mas chegou a um ponto quando já estava a começar a perder quase todas as suas capacidades e já nos cuidados paliativos quando deambolava pelo consciente e inconsciente, com as dores, medicação e definhamento pediu para morrer agarrado à minha mão.
Vê-lo foi para mim o pior e maior sofrimento que senti na vida, mas pior se sentia ele, com as dores que tinha, o desconforto, o não conseguir comer, o nada, o sentir-se um nada, apenas um corpo presente. Nunca eu tomaria uma decisão por ele, mas tomaria por mim, se eu estiver algum dia numa situação semelhante. E muito por esta vivência eu pediria, imploraria, que se fosse comigo eu queria ter o poder de decisão, eu escolheria ser eutanasiada. E não acho que ninguém poderá tomar essa decisão por mim. Da mesma forma que ninguém deve tomar por outra pessoa.
Agora não percebo, juro que não percebo, porque quem é contra a Eutanásia tente privar quem é a favor de o fazer. Se não o querem fazer é uma escolha vossa, mas quem quer não o poderá fazer por escolha de outrém? Como é possível? Desde quando alguém pode ter poder decisão na minha vida, numa escolha que é individual e que na realidade não afeta com certeza quem está a votar contra, porque não é a vidinha deles.

 

“O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado.”

Jean-Jacques Rousseau

 

Beijos, Seni.

 

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